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Arte Indígena

O índio

O índio é um ser harmonioso. Conhece e sabe utilizar todos os recursos existentes no meio em que vive para sobreviver e realizar-se plenamente.

A criatividade é intrínseca á sua cultura. Não é o resultado de uma aprendizagem com mestres experimentados, mas um processo que evolui vigorosamente de acordo com com as suas tradições. No traçado da linha e no escorrer da cor, ele transpõe o seu quotidiano e o seu universo mítico para um plano simbólico.

Bem longe da civilização, nas selvas ainda não contaminadas pela impostura e cupidez do homem branco, lá, onde as águas puras correm tranquilas nos remansos, volteiam nos rebojos, espuam, se aceleram e batem nas pedras das corredeiras e atingem suavemente os areias das praias; lá, onde as florestas não foram ainda removidas para dar lugar ao capim; lá naqueles rincões distantes, existem ainda algumas poucas dezenas de tribos no pleno gozo dos seus costumes tradicionais.

Suas grandes malocas ou simples abrigos provisórios, suas crenças e danças, que parecem vir de um passado remoto, são fragmentos do Brasil quinhentista, são resíduos daquela terra que se desdobrou, misteriosa e fascinante, aos olhos deslumbrados dos homens das caravelas, terra até então oculta e indiferente à passagem dos séculos.

Para os poucos índios que restam e que guardam até hoje a pureza dos seus antepassados, continua não existindo o tempo dividido em dias, semanas, meses e anos - existe, isto sim, o fluir silencioso das horas. Integrados ao meio vivem o presente.

Não há de se falar do índio e do seu “habitat" separadamente como se fossem coisas distintas. Não. índio e meio se integram numa só paisagem. Seus adornos são os mesmos com que a natureza se enfeita:

o verde das palmeiras
o branco da tabatinga
o negro opaco do carvão
o rubro do urucum
o vermelho da arara-piranga
amarelo-ouro da cauda do japu
bruno-escuro listrado de branco do apacanim
o cinza da imponente harpia
e as alvíssimas plumagens das graças que, em bandos numerosos na plenitude do verão, coroam as copas das árvores ribeirinhas.

Para completar a dependência e integração no seu "habitat", o índio tem ali o alimento vindo da terra escura, do fundo claro das águas, das copas frondosas das árvores onde pousam as grandes aves que não criou e crescem os frutos que não cultivou.

E, não foi ele próprio advindo do já existente na Mãe Natureza, do tronco das árvores ou de animais que se fizeram Gente ao sopro divino dos seus heróis criadores?

Orlando Vilas Boas